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A chegada dos zumbis

Published on 20/08/2012 by in Fantasia, Textos

Fica aqui meu agradecimento ao maior herói de um autor: O Leitor Anônimo. Singela figura que dedica parte de seu tempo para ler, muitas vezes não comenta, mas só o fato de estar lá já justifica nosso empenho. Essa postagem faz parte Escreva algo para seu público 2ª edição, e assim como eu vários autores escreveram um agradecimento para seus leitores. Fiquem com meu conto abaixo e divirtam-se:

 

Publicado originalmente em 20/08/2012

por Pedro Moreno

Quando eu imaginava essa situação era sempre melhor que isso. Não que fosse algo realmente bom, mas parecia divertido, ao menos era isso que a mídia sempre pregou e atingiu seu auge em 2012. Você ligava a televisão e via zumbis, ia ao cinema e lá estavam os mortos-vivos. Tinham quadrinhos, brinquedos, séries, livros e tudo mais que podiam oferecer sobre o assunto. Eu mesmo era ávido consumidor do assunto, podia discorrer sobre o melhor na literatura, tinha camisetas com posteres dos filmes de George A. Romero. Criei o Grupo de Estudos para a Prevenção de Apocalipse Zumbi, o GEPAZ, que tinha sede na minha casa. Todo primeiro domingo do mês nos reuníamos para assistir e debater os erros dos personagens que enfrentavam os errantes mortos.

Aos poucos a coisa começou a acontecer e todos estavam excitados, um jovem nos EUA sob influência de uma droga nova comeu o rosto de um mendigo e precisou ser baleado para parar. Casos parecidos começaram a pipocar por outras partes do mundo, o tom de nossas reuniões começou a ficar sério, alguns desistiam dizendo que um “grupo de nerds não vai conseguir sobreviver a isso”, os que ficaram no grupo começaram a estocar alimentos, tentamos nos armar, porém os lojistas cobravam preços altos demais e àqueles que não tinham porte de arma caíam na burocracia junto com milhares de pessoas preocupadas.

Tentamos também recorrer ao mercado negro, mas realmente éramos um bando de nerds que não conhecia ninguém que vendesse armas. O grupo foi aos poucos se dissolvendo, cada um indo cuidar de sua família ou ficar sob proteção de alguém mais forte. Eu acabei ficando só, pois já não tinha família e meus amigos eram o clube. Via as notícias na internet até ela ser cortada por falta de pagamento, depois foi a luz e a água. Eu estava incomunicável com o lado externo, as minhas janelas eram reforçadas por madeiras assim como todas as portas.
Moro desde pequeno em um sítio que já pertenceu aos meus pais. Ainda há um pedaço de mata atlântica intocada que bordeia um dos lados da propriedade e meus vizinhos usam as suas casas apenas nas férias. Sobreviverei.

Graças há um poço cravado no terreno ainda tenho água, mas a comida logo acabaria e eu seria obrigado a caçar. Não preciso dizer que minha geração não foi criada deste jeito, fomos educados pela televisão e tudo que sabemos provia da internet, agora essa vida de comodidades cobrava seu preço frente à barbárie que enfrentaríamos daqui pra frente. Meu pai guardava umas armadilhas para animais no depósito, mas fico em dúvida se teria coragem de arrancar a pele de algum bicho caso resolvesse armá-las.

Enquanto reviro o cômodo forrado de ferramentas e velharias à procura de algo para usar nesse novo mundo, sinto saudades de meu pai. Se ele estivesse aqui isso não seria problema. Umas caixas movidas e encontro o material de pesca que eu usava quando garoto. Um sorriso toma conta de meu rosto. Limpar um peixe e assá-lo eu sou capaz. Há um riacho não muito longe daqui e a infestação não deve ter chegado tão dentro das matas. É só eu ter cuidado.
Durmo ansioso. Nem bem o sol nasce e já estou arrumando a tralha de pesca em uma mochila e saio. Decido ir sem o carro, o barulho do motor pode chamar atenção dos mortos-vivos e seria bom economizar gasolina para um caso de necessidade. O sol vermelho nascendo no horizonte sangra o céu de vermelho, as árvores farfalhando com o vento parecem sussurrar segredos vistos enquanto todos dormiam. De vez em quando algum pássaro cruza o céu cantando, fora isso não avisto nenhum outro animal. Vinte minutos caminhando e consigo ouvir o barulho do riacho, aos poucos o leito de água calma aparece na minha visão, as coisas ali parecem que nunca irão mudar.

Sento em uma pedra e começo a colocar a ração na ponta do anzol. Cravo uma estaca na terra e anexo a vara de pesca. A isca se mantém parada em uma lagoa formada naturalmente pelo riacho que corre devagar. Um sino na ponta me avisará caso algum peixe belisque. Deito um pouco na rocha para aproveitar o sol e acabo dormindo um sono perturbado.

Zumbis invadindo minha casa, desejando meu sangue e rasgando minha carne. Sobrevivo, porém sei que logo virarei um deles. Do alto do telhado repenso minha vida enquanto tomo a decisão drástica. O salto logo vem, mas antes de atingir o chão, a sensação de queda me faz despertar, demoro um pouco para me localizar e lembrar qual é a situação, levanto assustado olhando em volta mas não há perigo algum, a vara permanece no lugar balançando apenas ao sabor do vento.

O sol quase alcança o meio do céu, olho para o relógio e já é 11:30, pelo jeito peixe só no jantar. A linha faz círculos na água conforme se mexe. Começo a desconfiar que não há mais peixes no lago. Aproximo da margem e não noto movimento. Será que tem algo a ver com os zumbis? A cena de zumbis comendo peixes não me entra na cabeça, seria meio… indigno. Talvez eu esteja acostumado com os mortos-vivos dos filmes. Ao menos as últimas notícias realmente retratavam a obsessão por carne humana.

Por um momento me senti meio idiota. Estudei e esperei tanto tempo por isso e agora só desejo meu mundo normal de volta. Antes de anoitecer volto para casa. Não quero ver um zumbi tão cedo.

No jantar frutas de novo. Acendo a lareira no centro da sala para conseguir um pouco de calor. Estou tendo pensamentos esquisitos de novo, de alguma forma não quero viver nesse mundo. Queria parar de sentir medo.

Uma batida corta o silêncio.

Mãos vigorosas contra minha porta. Enfim eles chegaram.

Logo depois tudo fica em silêncio. A pulsação de meu coração intensifica enquanto uma sombra passa pela janela, penso em tudo que poderia usar como arma, mas não consigo me mover. Congelado e com medo. Será assim meu fim? Uma nova batida, desta vez no vidro da janela, me pego pensando se há grades, mas não tenho certeza quanto a isso.

– Pô Eduardo! Estou te vendo, abre aqui!
A voz ecoa me atingindo em cheio. Faz muito tempo que não ouço meu nome ou alguma voz humana. Será que os zumbis agora falam?
– Eduardo caramba! É o Otávio, abre logo.
O Otávio! Ele fazia parte do grupo, por isso sobreviveu até agora. Corro até a porta e abro sem pensar, do outro lado Otávio com uma cara de preocupado.
– Entra – falei lacônico com medo de perguntar como estava o mundo lá fora.
Otávio entrou limpando os sapatos no capacho. Sentamos na sala, cada um em seu sofá.

– Cadê a luz?
– Foi cortada.
– Por isso você não responde mais aos e-mails?
– Não sabia que a internet ainda estava intocada…
– Do que você está falando?
– Otávio – falei pausadamente – como estão as coisas lá fora?
– Uma merda como sempre – respondeu com sinceridade típica.
– Está tão ruim assim?
– Você está falando sério?

– Estou…
– Calma aí… Acho que estou entendendo, você se refere aos zumbis.
Por um momento senti uma fisgada no coração. Faz cinco meses que não tenho notícias do mundo externo e algo agora não faz sentido. Otávio dá uma risada e começo a perceber o meu erro.
Ele ficou um tempo, nós conversamos bastante sobre os acontecimentos antes de eu me trancar, descobriram sobre a droga que aumentava a violência e provocava delírios canibalescos, logo conseguiram um tipo de soro que cortava o efeito e avisaram a população do perigo. Um mês depois de cortarem minha luz o cartel responsável pela droga já havia sido desfeito e a situação se normalizava. Depois Otávio foi embora e com ele todos os meus medos.
Naquela noite dormi um sono tranquilo que há muito tempo não tinha

 
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