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	<title>Pedro Moreno</title>
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		<title>Resoluções de Guerra</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Feb 2012 14:08:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>
		<category><![CDATA[Cobiça]]></category>
		<category><![CDATA[guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Medieval]]></category>

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Resoluções de Guerra publicado originalmente em 15/02/2012 por Pedro Moreno  A lareira crepitando era o único som que preenchia o ambiente quando o mordomo bateu na porta de madeira escura. Phillips pensou em se levantar, mas logo desistiu da ideia imaginando que poderia ser desfavorável à imagem que decidira criar para sua visita. Manteve-se austero observando as labaredas ora ou outra beijavam os tijolos avermelhados que compunham a chaminé, sequer olhando para sua convidada que entrava nesse momento. Fingindo surpresa levantou-se, afinal era cavalheiro, e beijou a ponta dos dedos enluvados da Condessa Makute. Até pouco atrás, a figura que agora adentra a sala, vestida com um longo vermelho costurado à fios de ouro e bordados de prata com desenhos de ursos portando coroas, viera em sua liteira até a frente do castelo. O mordomo galante deu-lhe a mão como apoio durante todo caminho até a porta e enfim a deixou ali com o Phillips, o Barão do Aço. Aquele encontro poderia ser notado como algo casual por alguém desacostumado aos jogos da política, uma reunião entre poderosos para poderem mostrar a si e aos outros seu sucesso perante aos plebeus. Mas ali havia um motivo sincero para os dois compartilharem o mesmo recinto: A guerra. Desde que o homem sente a fagulha da ambição existe a guerra. Provavelmente quando o mundo estiver prestes a desmoronar estaremos na briga pelo mesmo motivo de sempre: Dinheiro. A desculpa pode ser território, religião ou ideais, mas no fundo apenas há guerra por<a href="http://www.pedromoreno.com.br/?p=484"> <br /><br /> (Leia mais...)</a>]]></description>
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<p style="text-align: center;"><strong>Resoluções de Guerra</strong></p>
<p>publicado originalmente em 15/02/2012</p>
<p><strong>por Pedro Moreno </strong></p>
<p>A lareira crepitando era o único som que preenchia o ambiente quando o mordomo bateu na porta de madeira escura. Phillips pensou em se levantar, mas logo desistiu da ideia imaginando que poderia ser desfavorável à imagem que decidira criar para sua visita.</p>
<p>Manteve-se austero observando as labaredas ora ou outra beijavam os tijolos avermelhados que compunham a chaminé, sequer olhando para sua convidada que entrava nesse momento. Fingindo surpresa levantou-se, afinal era cavalheiro, e beijou a ponta dos dedos enluvados da Condessa Makute.</p>
<p>Até pouco atrás, a figura que agora adentra a sala, vestida com um longo vermelho costurado à fios de ouro e bordados de prata com desenhos de ursos portando coroas, viera em sua liteira até a frente do castelo. O mordomo galante deu-lhe a mão como apoio durante todo caminho até a porta e enfim a deixou ali com o Phillips, o Barão do Aço.</p>
<p>Aquele encontro poderia ser notado como algo casual por alguém desacostumado aos jogos da política, uma reunião entre poderosos para poderem mostrar a si e aos outros seu sucesso perante aos plebeus. Mas ali havia um motivo sincero para os dois compartilharem o mesmo recinto: A guerra.</p>
<p>Desde que o homem sente a fagulha da ambição existe a guerra. Provavelmente quando o mundo estiver prestes a desmoronar estaremos na briga pelo mesmo motivo de sempre: Dinheiro. A desculpa pode ser território, religião ou ideais, mas no fundo apenas há guerra por que há pessoas que querem mais dinheiro do que tem.</p>
<p>Essa mesma ambição fez com que Makute movesse suas tropas por léguas em terreno inóspito para atacar as terras do Barão. A desculpa era uma visão dada por seus ancestrais em forma de sonho confuso. Uma imensa cobra com as cores do território inimigo era esmagada sob os pés do grande patriarca que carregava um sorriso de vitória. Com tal profecia a Condessa não pensou duas vezes antes de mandar sua população contra os vizinhos.</p>
<p>O que ela não poderia imaginar era o poderio militar e as alianças escusas que Phillips era capaz de realizar. Com um aperto de mão, e muito suborno, convenceu seus inimigos de longa data do reino vizinho a ajudar-lhe com tropas que rechaçaram as investidas da Condessa.</p>
<p>Assim que a tropa de Makute com seus cavalos de guerra emplumados com as cores de seu país, ouro e vermelho, brilharam no horizonte, a tropa de Phillips já empunhava suas lanças e arcos à beira do muro. No começo a Condessa sentia o gosto da conquista adocicando seus lábios enquanto observava a guerra de trás da cortina de sua liteira, mas quando o exército vizinho chegou com sua tão esperada cavalaria vestida de cinza e verde, a vitória do Barão era certa.</p>
<p>Fugiram todos os invasores de volta ao reino, ao menos os que sobreviveram. O exército inimigo em seu encalço indicava que retaliação era certa, porém uma decisão errada fez com que as tropas de Phillips acampassem nos limites da cidade antes de prosseguir o ataque. Makute reuniu todos os homens que pudessem segurar uma espada e rumaram para sua morte em defesa dos muros da cidade.</p>
<p>Por sorte a alta muralha de pedra lisa pode conter os ataques. Quando perceberam a dificuldade que enfrentavam, as tropas emprestadas do inimigo abandonaram o campo de batalha deixando apenas as minguadas forças de Phillips combatendo.</p>
<p>A situação era desesperadora. Ao pé da muralha poucas centenas de homens treinados para lutar até a morte. Dentro dela alguns milhares de cidadãos sem nenhum conhecimento militar. No castelo, o Barão e a Condessa.</p>
<p>Makute saiu com a lua como testemunha e chegou ao castelo de Phillips. Os dois nesse momento se estudam feito dois lutadores de rua, tetando perceber de quem será o primeiro golpe.</p>
<p>– Quero propor uma trégua – começa Makute.<br />
– Deve estar louca mulher! – responde o Barão – começa uma guerra e depois deseja parar como se nada tivesse acontecido?<br />
– Seu exército morre perante minhas muralhas e diz que não quer parar!?</p>
<p>A discussão ganhou tons acalorados. Logo virou troca de insultos que em nada se relacionavam à guerra. Era a calvície do Barão, a falta de modos da Condessa, as linhagens podres por trás dos dois&#8230; Terminou a discussão com Makute batendo duramente a porta deixando Phillips gritando sozinho os mais impublicáveis despautérios, com o rosto vermelho ardendo em fogo.</p>
<p>No mesmo dia os dois ordenaram que a guerra continuaria. Catapultas atiraram pela primeira vez enquanto torres de invasão eram montadas no limite do acampamento. As caldeiras de óleo já ferviam sobre o fogo esperando a hora de serem derramadas sobre os inimigos. Com o por do sol, centenas de tochas acesas indicavam a movimentação do exército contra a a muralha, um grupo de alguns homens empurravam um pesado aríete com a ponta de metal na forma de um carneiro de olhos demoníacos.</p>
<p>Quando enfim o portão veio abaixo o sangue lavou o chão de pedra do pátio principal. Uma centena de arqueiros bem posicionados dispararam suas flechas embebidas em fogo contra o inimigo que acabara de invadir, não se importando caso algumas casas acabassem queimadas. Logo um incêndio se formou contendo a invasão e aniquilando boa parte da população que repelia o ataque.</p>
<p>No dia seguinte os corpos do exército de Phillips foram empilhados à frente da muralha, e lá crepitaram sob as chamas com suas cabeças servindo de testemunhas enfincadas em lanças na terra nua. O momento que era para ser de comemoração não foi. Logo a Condessa Makute reuniu os generais que lhe sobraram e juntou a população que ainda tinha forças para então tomar as terras de Phillips. Antes de conseguir marchar para fora da cidade, uma comitiva de paz apareceu no horizonte trazendo a bandeira branca tremulante, e para a surpresa de Makute, o próprio Barão estava nela.</p>
<p>Ele arrastou seu corpanzil enfeitado por uma bela armadura enfeitada e ao lado uma espada embainhada de cabo dourado. Makute olhou de cima a baixo seu adversário que fechava a porta atrás de si.</p>
<p>– Fechou a porta para que teus súditos não fizessem gracejos suas sobre estar ajoelhado pedindo por clemência? – apunhalou Makute com seu melhor olhar de sarcasmo.<br />
O Barão permaneceu de olhos fechados. Seu rosto vermelho parecia estar em brasa e a raiva crescia dentro de seu peito rancoroso. Ele viera aqui para uma trégua, mas agora a sua vontade era outra.</p>
<p>Uma de suas mãos deslizou pela lateral do corpo e puxou a espada que carregava fazendo-a brilhar sob a luz das velas que iluminavam o local. O corpo da Condessa estremeceu, mas mesmo assim não deixou de expressar reação na forma de uma adaga curva escondida sob as dobras do vestido.</p>
<p>Por um momento tudo ficou em silêncio. Makute não queria gritar pedindo ajuda por uma questão de honra, e o mesmo sentimento fazia com que Phillips mantivesse firme sua espada em posição de ataque.</p>
<p>– Sangrará feito uma porca que é Makute! – gritou Phillips investindo sua lâmina contra a mulher.<br />
As lâminas se cruzaram e o som do tilintar logo despertaria a atenção dos guardas que estavam no andar de baixo. A Condessa só precisaria sobreviver até esse ponto, o que não seria difícil dada a destreza maior dela perante o gordo Barão.</p>
<p>Conforme fugia, Makute sentiu que logo a estafa a alcançaria e nada conseguira fazer para salvar sua vida. Ela levantou a mão e surpreendentemente o Barão, com o suor a lhe cair pela testa, parou.<br />
– Paremos! O que somos afinal? Animais que se digladiam até a morte?<br />
O Barão baixou por um momento sua espada. Os sinais de cansaço se faziam visíveis com sua respiração pesada e desgastada. Ele pareceu disposto a ouvir.<br />
– O que fazemos aqui? Somos superiores à isso tudo. Temos súditos que morreriam felizes por nós e vamos resolver as nossas diferenças com derramamento de sangue? Nosso sangue! Sentemos em nossas cadeiras e assim podemos conversar sobre os rumos da guerra.<br />
Phillips ainda ofegante olhou umas duas vezes para a espada que empunhava, porém mal sentia no peito a chama que fizera ele atacar. Sentaram-se os dois e discutiram, argumentaram e enfim decidiram continuar com a guerra por não terem chegado em acordo. Só faltaram apertar as mãos tamanho decoro com o qual eram decididos a morte de tantos.</p>
<p>Porém um barulho surgia na parte debaixo do castelo. Era som de invasão. A Condessa olhou para Phillips esperando sua risada maléfica dizendo que era uma armadilha, mas este parecia mais surpreso que ela mesma. O som feito trovão subiu pelas paredes de pedra até que um primeiro estouro foi ouvido na porta de frente fazendo-a estremecer. Os dois nobres permaneceram parados em seus lugares salvo à uma leve tremedeira que tomava conta deles.</p>
<p>A porta tão logo ruiu, os invasores entraram no salão provocando surpresa no Barão e na Condessa. Estava lá a população sob o domínio de Phillips, trazendo consigo as armas que restaram retiradas dos mortos de batalha. Junto com eles a povo que reverenciava Makute, com seus rastelos, arcos e tudo o mais que de improviso pudesse ferir alguém. Os olhos tinham raiva. As mãos apertavam seus instrumentos de matança até os nós dos dedos ficarem brancos.</p>
<p>Voltaram ao pátio com as cabeças de suas autoridades içadas por lanças e a consciência tranquila de terem feito o que era certo. A guerra termina&#8230; por ora.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Sugestão da leitora <strong>Fernanda-Maku</strong></p></blockquote>
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		<title>Hoje vamos lutar!</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Jan 2012 13:24:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>

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Nessa semana diversos Dojôs espalhados pelo mundo recomeçam sua atividade. Lutadores de várias modalidades depois do recesso de começo de ano voltam a vestir seus esparadrapos, kimonos, faixas ou qualquer outro equipamento que usem para seu esporte. Mas gostaria de atentar à palavra lutador. Lutador, antes de tudo por definição de qualquer dicionário, é aquele que luta. Nesse momento você pode até pensar que esse texto nada te a ver contigo, afinal você pode nunca ter pisado em um tatame, nunca calçado luvas ou entrado em um ringue. Mas verdade que ressalta é que todos lutamos. A vida não é fácil, lutamos por empregos melhores, por dignidade, direitos, educação, saúde&#8230; Nossa briga por uma vida melhor é diária. Lutamos contra nossos sentimentos ruins, a falta de perspectiva e os abusos dos &#8220;superiores&#8221;. Todos nós diariamente vestimos nossos kimonos para ir ao trabalho e amarramos nossas faixas que representam a coragem e a experiência acumulada ao longo do tempo. Cumprimentamos pela manhã a entrada do tatame que é a nossa vida e tentamos derrotar a todo o custo nossos problemas. Porém a vida é geralmente mais forte que nós, conhece melhor a técnica e é capaz de nos derrubar quando sequer percebemos que esta fez a &#8220;pegada&#8221;. Nossa melhor chance é continuar se levantando a cada queda, nunca abaixaremos a cabeça diante do inimigo, pois temos certeza que ele nunca fará. Nesse momento todo cidadão deveria se espelhar no exemplo dos bons lutadores. Educação e gentileza ao entrar no combate. Humildade<a href="http://www.pedromoreno.com.br/?p=477"> <br /><br /> (Leia mais...)</a>]]></description>
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<p>Nessa semana diversos Dojôs espalhados pelo mundo recomeçam sua atividade. Lutadores de várias modalidades depois do recesso de começo de ano voltam a vestir seus esparadrapos, kimonos, faixas ou qualquer outro equipamento que usem para seu esporte.</p>
<p>Mas gostaria de atentar à palavra lutador.</p>
<p>Lutador, antes de tudo por definição de qualquer dicionário, é aquele que luta. Nesse momento você pode até pensar que esse texto nada te a ver contigo, afinal você pode nunca ter pisado em um tatame, nunca calçado luvas ou entrado em um ringue.</p>
<p>Mas verdade que ressalta é que todos lutamos.</p>
<p>A vida não é fácil, lutamos por empregos melhores, por dignidade, direitos, educação, saúde&#8230; Nossa briga por uma vida melhor é diária. Lutamos contra nossos sentimentos ruins, a falta de perspectiva e os abusos dos &#8220;superiores&#8221;. Todos nós diariamente vestimos nossos kimonos para ir ao trabalho e amarramos nossas faixas que representam a coragem e a experiência acumulada ao longo do tempo. Cumprimentamos pela manhã a entrada do tatame que é a nossa vida e tentamos derrotar a todo o custo nossos problemas.</p>
<p>Porém a vida é geralmente mais forte que nós, conhece melhor a técnica e é capaz de nos derrubar quando sequer percebemos que esta fez a &#8220;pegada&#8221;. Nossa melhor chance é continuar se levantando a cada queda, nunca abaixaremos a cabeça diante do inimigo, pois temos certeza que ele nunca fará.</p>
<p>Nesse momento todo cidadão deveria se espelhar no exemplo dos bons lutadores. Educação e gentileza ao entrar no combate. Humildade com o oponente e garra para transpor todos os desafios que se agigantam sobre nós. E ao final, tendo ganho ou perdido, sorrir e cumprimentar seu oponente, seja ele um lutador como nós ou seja a própria vida, porque amanhã é outro dia de luta e o importante é nunca desistir.</p>
<p>Bons treinos aos lutadores da vida ou dos tatames!</p>
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		<title>Feira de Antiguidades</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Oct 2011 19:16:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Suspense]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>
		<category><![CDATA[Antiguidades]]></category>

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Nádia odiava quando algum jornalista começava sua matéria no canteiro central dizendo “estamos na Avenida Paulista, a mais paulista das avenidas”. Estava no seu segundo ano de jornalismo e já compreendia que esse chavão era pura falta de imaginação. Hoje no metrô a caminho da famigerada quase disse em voz alta a bendita frase. Seus cabelos tingidos de vermelhos em madeixas brilhantes a beijar seus ombros e de vez em quando esconder seus olhos castanhos. O visual desleixado de calça jeans rasgada nos joelhos e camisa xadrez larga nem mais chama atenção na movimenta metrópole cheio de figuras estranhas em seu constante formigamento pelas calçadas. O destino é certo. No domingo a feira de antiguidades no vão do MASP é o lugar para se achar acessórios retrôs e pensar em histórias malucas de objetos cotidianos que um dia já foram queridos ou permaneceram esquecidos em alguma gaveta. Cerca de trinta barracas padronizadas de cor azul escuro enfileiradas com os mais diversos artigos de época Mal chega na feira, Nádia abre um sorriso encantador. Seus olhos rápidos passam pelas barracas até achar um camafeu, não tão certa quanto ao material ela pegou com delicadeza enquanto examinava os detalhes. Um busto de uma mulher de cabelos cacheados e efígie séria. &#160; … &#160; Natália está triste. Há três dias seu marido lhe esbofeteou dominado pelo álcool e macheza. A área ao redor de seus olhos logo ganhou cor escura com bordas amareladas. Doía só de pesar os dedos. Quando tomava banho a<a href="http://www.pedromoreno.com.br/?p=469"> <br /><br /> (Leia mais...)</a>]]></description>
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<p>Nádia odiava quando algum jornalista começava sua matéria no canteiro central dizendo “estamos na Avenida Paulista, a mais paulista das avenidas”. Estava no seu segundo ano de jornalismo e já compreendia que esse chavão era pura falta de imaginação. Hoje no metrô a caminho da famigerada quase disse em voz alta a bendita frase. Seus cabelos tingidos de vermelhos em madeixas brilhantes a beijar seus ombros e de vez em quando esconder seus olhos castanhos. O visual desleixado de calça jeans rasgada nos joelhos e camisa xadrez larga nem mais chama atenção na movimenta metrópole cheio de figuras estranhas em seu constante formigamento pelas calçadas.</p>
<p>O destino é certo. No domingo a feira de antiguidades no vão do MASP é o lugar para se achar acessórios retrôs e pensar em histórias malucas de objetos cotidianos que um dia já foram queridos ou permaneceram esquecidos em alguma gaveta. Cerca de trinta barracas padronizadas de cor azul escuro enfileiradas com os mais diversos artigos de época</p>
<p>Mal chega na feira, Nádia abre um sorriso encantador. Seus olhos rápidos passam pelas barracas até achar um camafeu, não tão certa quanto ao material ela pegou com delicadeza enquanto examinava os detalhes. Um busto de uma mulher de cabelos cacheados e efígie séria.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>…</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Natália está triste. Há três dias seu marido lhe esbofeteou dominado pelo álcool e macheza. A área ao redor de seus olhos logo ganhou cor escura com bordas amareladas. Doía só de pesar os dedos. Quando tomava banho a água atingia com força seu rosto para lembrá-la o quão covarde era. Deveria ter sumido faz tempo, fugido que fosse, para casa de sua mãe ou até que fixasse moradia embaixo de qualquer ponte seria mais digno que apanhar sem reagir.</p>
<p>Mas era preciso de coragem.</p>
<p>Quando pequena apanhara do pai, do padre, do tio, do avô&#8230; Qualquer autoridade masculina que se achava digna de batê-la o fazia. Ficava dias trancada em seu quarto relembrando dos hematomas toda vez que adquiria um novo. Aquilo aos poucos envenenava seu humor, não era mais capaz de sorrir de graças e não sentia vontade de viver.</p>
<p>Em sua mão o camafeu de madrepérola, o último presente que seu marido lhe dera quando chegara em casa depois de sua última agressão. Ela chorou quando o recebeu e ele tomou as lágrimas como alegria, ela o abraçou forte com suas mãos a apertar-lhe as costas. Ele sorria por ter conseguido o perdão da esposa. Ela com os olhos encharcados não parava de olhar para o copo de uísque onde colocara o veneno que agora jazia vazio sobre a mesa. Ele morreu em seu braços convulsionando.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>…</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um senhor que passava esbarrou em Nádia e acabou por a acordando de seus pensamentos. Recém desperta ,de seus sonhos acordados, seguiu por entre as barracas e encontrou algo interessante. Além de abridores de cartas feitos de marfim e espelhos adornados de latão, uma coleção de bengalas de todas cores e formas. Algumas de madeira escura, outras de puro metal. Em uma delas uma empunhadura de águia metálica e madeira de ipê envernizada. Outra muito simples tinha uma biqueira de ferro já amassada pelo uso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>…</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Manuel não largava sua expressão de raiva resignada. Nada estava bom. Só saía de sua cama pela manhã com a ajuda de sua bengala e caminhava com esforço até a sacada para tomar um pouco de sol. Edgar dizia que esse era o único momento de sossego de seu trabalho</p>
<p>Edgar se formara em enfermagem e esteve em muitos hospitais, foi um amigo que conseguira para ele um emprego em uma agência que prestava cuidados na residência do paciente. No começo pareceu algo muito bom, mas lidar com Manuel era aprender a viver no inferno.</p>
<p>Reclamava o tempo todo e quando não gostava da comida gostava de jogar o prato contra seu peito. O dinheiro era bom e desafogou as dívidas que tinha, mas as os maus tratos advindos de seu paciente faziam-no pensar duas vezes antes de continuar com o trabalho.</p>
<p>Fazia um mês que assistia Manuel e nunca ouvira um obrigado. Tomou a decisão de pedir as contas assim que levasse seu almoço. Porém chegou no quarto e o viu vazio. Seguiu até cama e se abaixou para ver se ele não havia caído da cama e talvez rolado. Com passos macios, Manuel saiu da varanda apoiado com a bengala. Edgar não ouviu o homem chegando e tampouco pode reagir quando a bengala desceu rápido na sua cabeça o derrubando com um só golpe.</p>
<p>Uma poça de sangue escorreu da boca do enfermeiro formando uma poça viscosa enquanto Manuel deitado em sua cama dormia com o defunto a lhe faze companhia</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>…</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Sinistro”, pensou Nádia devolvendo o objeto ao seu lugar. Um senhor passou por ela apoiada em sua bengala e instintivamente ela levantou as mãos como tentasse se proteger, depois de ter percebido seu gesto fingiu que arrumava seu cabelo um pouco envergonhada do que fizera.</p>
<p>Resolveu seguir em frente.</p>
<p>Muitos brinquedos antigos, peças de xadrez feitas esculpidas no mármore e telefones de épocas que ela nem tinha nascido ainda. Livros estrangeiros de edições raras tão gastos que parecem ter sido lido um milhão de vezes. Passou por uma banca com câmeras de fotografias restauradas, pergunta se funcionam para ouvir da vendedora que sim, difícil seria comprar filmes para elas.</p>
<p>Logo ao lado uma banquinha vendendo canetas tinteiros.</p>
<p>Uma delas com o corpo de ouro ainda seu estojo original chamou-lhe a atenção. Tinha detalhes vermelhos e um nome gravado: Aurélio.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>…</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A cachaça desceu doída pela garganta. Queria ele gostar de vinhos feito seu pai, mas seu gosto era mesmo da caninha. Não contava dinheiro para os gastos com a bebida. Quando pegava o dinheiro de sua aposentadoria separava uma parte para o almoço no botequim e logo entregava para o proprietário com medo de gastá-lo. Era a garantia que comeria no mês.</p>
<p>Com o restante seguia até as adegas de qual gostava e comprava suas preciosas garrafas. Envelhecidas em barril de carvalho, recém destiladas ou com ervas aromáticas, não importava como eram. Todas tinham um lugar especial em seu fígado.</p>
<p>Quando já perto do final do mês, eram as vagabundas que o satisfaziam. Custavam algumas moedas apenas, envazadas em garrafas de plástico em formato de barril de gosto duvidoso.</p>
<p>Começara a beber cedo, com 12 anos se orgulhava de tomar um copo de pinga e sequer fazer cara feia. Aos 21 uma dose todos os dias e agora apenas quando pela manhã tomava um copo logo no café é que parava de tremer sua mão.</p>
<p>Sua pele engrossada pela bebida e olhos vazios perdidos na folha de papel faziam dele um retrato débil do que um dia foi. Sua altivez perdida na infância nem demonstrava que um dia existiu. A mão trêmula abriu com calma a caixa desnudando a caneta dourada que descansava no interior de camurça vermelha.</p>
<p>Aos poucos os riscos concentrados tingiam o papel com linhas tortas e emocionadas. Nunca tinha se casado, tampouco teve filhos. Não se destacara em seu emprego ou teve hobby. Não era exemplo para ninguém e os vizinhos não falavam com ele. Sua única companhia são as garrafas enquanto estiverem cheias.</p>
<p>Na última linha escreveu que talvez a única pessoa a ler essas palavras seja o primeiro policial a lhe encontrar, nem o delegado se interessaria pelo relato. Assim pulou da sua janela como destino final.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>…</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nádia sentiu um arrepio em sua espinha. Deixou a caneta em seu lugar sorrindo. Pegou o metrô de volta para sua casa para escrever tudo aquilo que viu e sentiu, mesmo que nunca tivesse ocorrido as histórias existiam em sua imaginação.</p>
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		<title>Boxeador</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Aug 2011 13:03:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Terror]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>
		<category><![CDATA[Boxe]]></category>
		<category><![CDATA[Demônio]]></category>

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Não há mais a gritaria da multidão, o ringue vazio ecoa a solidão dos deprimidos e derrotados. Souza enrola a bandagem na mão e deixa firme no pulso, por um momento fica pensativo enquanto toca o dente solto com a língua, presente dado por seu adversário na última luta, junto com o olho inchado e uma ferida que custa se cicatrizar: a derrota. Maldição que lhe sangra internamente toda vez que sua cabeça toca a lona. A idade avança a passos largos e sua experiência é maior, mas a força, tão importante no boxe, já não é a mesma. As cinco últimas lutas foram derrotas. Souza já está cansado de apanhar. Pendura as luvas já gastas sobre os ombros e segue para fora ginásio, do lado de fora a lua cheia ilumina a estrada vazia e melancólica, uma rua não asfaltada que segue com má iluminação por muitos quilômetros. O bairro já abrigara fábricas, escolas e casas, hoje um monte de imóveis abandonados, um bar suspeito e o ginásio são as únicas coisas presentes na região. Souza segue cabisbaixo pelo chão de terra até achar o cruzamento. Um poste com a lâmpada queimada serve de encosto, o boxeador senta no chão com o negrume a lhe cobrir e lá fica desejoso de tempos melhores. Na escuridão da noite, com a lua como testemunha, Souza permanece quieto, sentado no chão de terra tentando não se lembrar de como é sua vida. Até que ele aparece. Um homem alto com terno bem<a href="http://www.pedromoreno.com.br/?p=453"> <br /><br /> (Leia mais...)</a>]]></description>
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<p>Não há mais a gritaria da multidão, o ringue vazio ecoa a solidão dos deprimidos e derrotados. Souza enrola a bandagem na mão e deixa firme no pulso, por um momento fica pensativo enquanto toca o dente solto com a língua, presente dado por seu adversário na última luta, junto com o olho inchado e uma ferida que custa se cicatrizar: a derrota. Maldição que lhe sangra internamente toda vez que sua cabeça toca a lona.</p>
<p>A idade avança a passos largos e sua experiência é maior, mas a força, tão importante no boxe, já não é a mesma. As cinco últimas lutas foram derrotas. Souza já está cansado de apanhar. Pendura as luvas já gastas sobre os ombros e segue para fora ginásio, do lado de fora a lua cheia ilumina a estrada vazia e melancólica, uma rua não asfaltada que segue com má iluminação por muitos quilômetros. O bairro já abrigara fábricas, escolas e casas, hoje um monte de imóveis abandonados, um bar suspeito e o ginásio são as únicas coisas presentes na região.</p>
<p>Souza segue cabisbaixo pelo chão de terra até achar o cruzamento. Um poste com a lâmpada queimada serve de encosto, o boxeador senta no chão com o negrume a lhe cobrir e lá fica desejoso de tempos melhores.</p>
<p>Na escuridão da noite, com a lua como testemunha, Souza permanece quieto, sentado no chão de terra tentando não se lembrar de como é sua vida. Até que ele aparece. Um homem alto com terno bem alinhado, não é possível ver seu rosto e nem de onde veio, quando percebeu ele já estava na sua frente, parado, com as mãos estendidas em sua direção. O boxeador não sabia bem o que ele queria, então percebeu que eram as luvas que o estranho almejava. As entregou. Havia algo de estranho no sujeito, uma arrepio involuntário que sismava lhe percorrer a coluna, o avisava que algo errado havia com sua companhia noturna.</p>
<p>O homem segurou as luvas com as palmas para cima como se sentisse o peso delas, ficou calado enquanto as calçava e tentou uns socos no ar. “Você luta?” perguntou Souza, mas o outro nada respondeu. O silêncio era quase físico, uma parede entre os dois intransponível. A noite não permitia ver quem ele era, suas feições ficaram perdidas na escuridão, sabia-se apenas que tinha terno, a camisa era vermelho escuro e um chapéu estava no topo da cabeça, fora isso nada mais. O sujeito tirou as luvas e as devolveu para Souza. “Deseja ser um campeão?” enfim falou o homem com uma voz forte que minava a coragem dos homens, o boxeador conseguiu apenas afirmar com a cabeça. O homem nada mais disse, se virou em direção à estrada poeirenta e sumiu na noite deixando Souza sozinho novamente.</p>
<p>O sol deu sua benção pela manhã e encontrou Souza ainda desperto na encruzilhada. Não tivera vontade de ir para casa e dormir, passou a noite inteira meditando sobre sua miserável vida naquele lugar inóspito. Aos poucos os carros começaram a passar e com eles os trabalhadores seguindo para seus ofícios.</p>
<p>Souza se levanta de sua morosidade e segue de volta ao ginásio, alguns lutadores já treinam nos pesados sacos de areia, Gabriel, seu treinador, já está no centro do ringue orientando um sparring.</p>
<p>Assim que o Souza chega perto do ringue, o treinador para o que está fazendo. “Você está com uma cara péssima Souza!” diz o treinador o medindo. “Ainda não dormi.”. Gabriel balança a cabeça negativamente e diz para o boxeador dormir um pouco no vestiário, afinal hoje à noite é a repescagem, se falhar o contrato acaba e Souza terá que voltar a ser estivador.</p>
<p>A cena é de pura depressão, deitado nos ladrilhos frios do vestiário, ao lado de uma meia suja deixada para trás e utilizando as próprias luvas de travesseiro, Souza consegue enfim dormir um sono difícil e perturbado. Ao acordar não consegue se lembrar do que acontecera, a multidão se aglomerando indica que daqui a pouco será sua luta, talvez a última de sua vida.</p>
<p>Os braços pesados encontram o corrimão em direção ao centro da arena, o ringue iluminado e aos poucos os apostadores chegam e conferem a situação de Souza, preferem apostar no adversário.</p>
<p>As bandagens fixam firmes nos punhos e logo a luva se encaixa na mão. Souza se lembra da época que contava com escudeiro para ajudá-lo a calçar suas armas. Do ginásio é possível ouvir o adversário sendo anunciado, um tal de Marcos, dez anos mais jovem e pura vitalidade. Souza o observa do lado de fora antes de ser anunciado. O locutor o chama e quando este passa pelo corredor de arquibancadas é vaiado. O fim nunca estivera tão perto como agora. O gosto de morte estava na boca.</p>
<p>Já no ringue os dois ouvem as instruções, Souza nem tem coragem de olhar para Marcos que o encara fixamente, os dois seguem para seus respectivos corners e aguardam o soar do gongo que traz os uivos de êxtase da multidão. Quando este enfim ressoa, os dois lutadores seguem o show, primeiro se estudam tentando socos curtos e sem impacto, Marcos agita o braço em um cruzado, porém o inimaginável acontece, com um soco apenas Souza derruba o boxeador inconsciente no chão de tal forma que nem ele mesmo acredita, ficando boquiaberto olhando o rapaz duro no ringue. A multidão explode em gritos, os apostadores jogam seus bonés no chão. Ele não sabe como, mas ganhou de nocaute.</p>
<p>E assim foi o campeonato inteiro, um após outro caindo pesadamente na lona, demorando não mais que um round para serem nocauteados. A confiança aos poucos recuperava-se no peito de Souza e seu brilho de juventude parece ter se apossado novamente do velho corpo. Indiscutivelmente ele foi campeão novamente, levou para casa um enorme troféu brilhante com um lutador no topo rodeado de louros. Seu nome gravado na base não deixava dúvidas, o contrato permanecia e agora o dinheiro corria feito rio bravo.</p>
<p>Então veio o campeonato regional, depois o estadual e por último então o nacional. Ganhou todos, de forma miraculosa ganhou todas as lutas, porém sentia um vazio cada vez maior, no fundo sabia que aquele sujeito, naquela noite, que pegara suas luvas tinha feito algo com ele. O treino não rendia, o sono não satisfazia e a forma não se adequara, mesmo assim os lutadores caíam na lona frente à seus socos impiedosos. Ganhara até novo apelido, agora era o “Souza Mão de Marreta”.</p>
<p>O convite para o mundial apareceu logo, com uma boa bolada apostada em Souza. Ele aceitou rápido, mas seu coração doía com algo. Naquela noite, quando todos foram dormir e o sono não vinha, ele foi até o antigo ginásio, passou pelas portas fechadas e caminhou no escuro até o cruzamento. Sentou no mesmo lugar de outrora, com suas luvas nas mãos. Então sua suspeita se confirmou, ele apareceu novamente. Seu rosto não se podia ver. Parou na frente de Souza com as mãos nos bolsos do paletó, esperando que boxeador o falasse. “O que você fez comigo?” foi a pergunta, “Você sabe” era a resposta que ele não queria aceitar. “Desfaça, desisti, não quero mais ser campeão de nada! Prefiro minha alma livre como estivador do que essa prisão sem grades como campeão.”, ouviu apenas um “Tarde demais” da figura que desapareceu entre os braços da escuridão.</p>
<p>Primeira luta do mundial. Cartazes com a foto de Souza e as mais diversas declarações, elogios e apoios. O adversário, um mexicano campeão em sua pátria, com suas luvas verdes, fazia seu aquecimento enquanto aguardava pela vinda da sensação em forma de boxeador, tão logo o locutor o anunciou, apareceu o “Mão de Marreta”, com sua atitude estranha de manter a cabeça baixa como se sentisse vergonha de algo. O gongo soou alto e os dois se encontraram no centro do ringue.</p>
<p>Bastou um soco e Souza caiu no chão.</p>
<p>O juiz deu a vitória por nocaute enquanto os paramédicos invadiam a arena, logo um grupo de pessoas se amontoavam em trono do outrora campeão, um burburinho chegou na arquibancada que logo fez alguns chorarem. Souza estava morto.</p>
<p>Na arquibancada, um homem de terno e sem rosto se levanta e some no meio da multidão</p>
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		<title>Construção</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Aug 2011 13:03:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>
		<category><![CDATA[Humor]]></category>

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Em um morro particularmente alto, ficava o bairro mais abastado da cidade, depois dele, seguindo pela avenida, já era possível ver um conjunto de casas regulares, beirando a padronagem se não fosse uma ou outra modificação feita pelos moradores. Alguns adicionavam sacadas às janelas, outros criavam outro andar sobre o que era a garagem e havia aqueles que juntavam novamente as casas geminadas criando um só casarão. Dos poucos imóveis mudados, um se destacava pela falta de bom gosto. Uma caixa quadrada feita de cimentos e tijolos com três andares ainda sem pintura e janelas sem vidros. Uma pilha mal arrumada de areia logo na entrada indicava sua condição de estar ainda sendo construída. Logo que derrubaram duas casas recém compradas, uma ao lado da outra, os vizinhos já se perguntavam curiosos quem teria tanto dinheiro para derrubar tudo e começar do zero, depois de um ano de construção, nada foi respondido ainda. Alguns diziam ter visto o dono inspecionar a obra, outros argumentavam que era o engenheiro que o fazia. Um dos moradores do final da rua, até procurou nos arquivos da prefeitura quem era o dono da localidade, porém os documentos ainda não alterados não traziam soluções para as questões. Nessa semana nenhum pedreiro viera trabalhar, os burburinhos aumentaram, “É claro que não teria tanto dinheiro para bancar construção assim, se tivesse teria comprado casa no bairro alto que é mais cara.” Mas isso eram só suposições. Quando a casa ficara um semestre inteiro sem receber pedreiros, outro<a href="http://www.pedromoreno.com.br/?p=456"> <br /><br /> (Leia mais...)</a>]]></description>
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<p>Em um morro particularmente alto, ficava o bairro mais abastado da cidade, depois dele, seguindo pela avenida, já era possível ver um conjunto de casas regulares, beirando a padronagem se não fosse uma ou outra modificação feita pelos moradores. Alguns adicionavam sacadas às janelas, outros criavam outro andar sobre o que era a garagem e havia aqueles que juntavam novamente as casas geminadas criando um só casarão.</p>
<p>Dos poucos imóveis mudados, um se destacava pela falta de bom gosto. Uma caixa quadrada feita de cimentos e tijolos com três andares ainda sem pintura e janelas sem vidros. Uma pilha mal arrumada de areia logo na entrada indicava sua condição de estar ainda sendo construída. Logo que derrubaram duas casas recém compradas, uma ao lado da outra, os vizinhos já se perguntavam curiosos quem teria tanto dinheiro para derrubar tudo e começar do zero, depois de um ano de construção, nada foi respondido ainda.</p>
<p>Alguns diziam ter visto o dono inspecionar a obra, outros argumentavam que era o engenheiro que o fazia. Um dos moradores do final da rua, até procurou nos arquivos da prefeitura quem era o dono da localidade, porém os documentos ainda não alterados não traziam soluções para as questões.</p>
<p>Nessa semana nenhum pedreiro viera trabalhar, os burburinhos aumentaram, “É claro que não teria tanto dinheiro para bancar construção assim, se tivesse teria comprado casa no bairro alto que é mais cara.” Mas isso eram só suposições. Quando a casa ficara um semestre inteiro sem receber pedreiros, outro vizinho dissera algo sobre embargo de obra, coube novamente ao funcionário público checar e nada havia de errado. Porém desta vez não ficara de mãos vazias, a documentação trazia um nome: Guilherme de Andrade e Silva.</p>
<p>“Eu conheço a família dele, herdou toda a fortuna do pai e até hoje torra como se não houvesse amanhã!” disse um dos mais velhos moradores da rua, “Que nada! Esse é empresário bem sucedido que investe em imóveis, decerto achou outro investimento mais atraente.” argumentava outro. O fato é que todos puxavam sardinha para sua versão, sendo uma mais conspirativa que a outra.</p>
<p>Fato é que os pedreiros voltaram a trabalhar. Outra construtora. Mais narrativas de como a anterior dera um golpe em Guilherme ou que os prazos não foram cumpridos. Dois meses depois alguns pintores começaram o acabamento final da obra e esta foi deixada pronta. As pessoas aguardaram ansiosas pela vinda do morador, mas este não aparecia. Toda semana algum vizinho dizia que viu um caminhão de mudanças em frente a casa, mas nada acontecia.</p>
<p>Os boatos ficaram mais intensos. “É coisa de traficante!” decretou uma vizinha mais afoita que proibira seus filhos de brincarem em frente da casa. Algumas outras mães seguiram o exemplo com medo de ter suas crianças raptadas e ter os órgãos vendidos no mercado negro. Alguns sujeitos querendo bancar os durões, passaram a usar a casa como ponto de encontro esperando que a fama transferissem para eles. Teve uma noite que a polícia até revistara uns quatro rapazes mal encarados que sentavam em frente a porta, aumentando ainda mais as desconfianças dos moradores.</p>
<p>Entre a bandidagem a casa ficou conhecida por dar a língua nos dentes, coisa de traidor mesmo. Era só ficar em frente a casa que você corria o risco de se explicar na delegacia. Um dia uma viatura encostou na porta enquanto um policial iluminava a garagem com uma lanterna, uma das vizinhas logo disparou pelo telefone mesmo, para não perder tempo, “Os policiais estão pegando propina com o dono da casa!” Logo esse era o assunto geral da rua pela manhã.</p>
<p>Uma das mulheres que lá moravam, solteirona convicta e de muitas amigas, disse a torto e direito que não era um homem o dono, e sim uma mulher, e inclusive a visão dos demais vizinhos era muito machista a ponto de crer que o gênero feminino não era capaz de liderar uma “família do crime”. Assim que a palavra família veio a tona, um dos moradores balbuciou “máfia”.</p>
<p>A bagunça estava feita. Muita gente passou a economizar dinheiro para quando fossem extorquidos por algum mal encarado com uma cicatriz no rosto. Era só alguém passar de terno que as pessoas se escondiam em suas casas, a líder da gangue, tinha até nome agora: “Senhora Muerte”, inclusive matou o marido que havia comprado a casa, por isso que a construção ficou tanto tempo parada, era os advogados se mexendo pelas beiras da lei, lutando para que ela herdasse tudo.</p>
<p>Os meses se passavam com momentos de pouco e momentos de muito medo. Quando um famoso programa de reportagem na televisão falou sobre o tráfico de órgãos, tudo já estava acertado. Senhora Muerte usaria o casarão para retalhar, pessoalmente, suas vítimas e vendê-las no Canadá para endinheirados que precisam de transplantes.</p>
<p>Porém os moradores do sexo masculino estavam inquietos, não era possível que uma mulher fizesse tudo isso, essa história era invenção dessa vizinha que não gosta de homens. Passaram a dizer que era Guilherme sim o capo de tutti capi, supremo chefe do crime organizado tupiniquim e esse se parecia muito com o Marlon Brando no Poderoso Chefão. Era proibido as mulheres deles dizerem ao contrário e logo sua versão era difundida pelas senhoras que dispunham mais tempo de fofocar.</p>
<p>Então um caminhão de mudança parou em frente à casa. Caixas de papelão foram colocadas para dentro da garagem, recebidas por homens de macacão cinza. Um dos garotos passou por perto e pode ver com clareza o desenho de uma maca em uma delas. Correu para casa para alertar o pai que pegara o telefone, pronto para avisar a polícia, porém foi detido por sua esposa dizendo que se os denunciasse eles poderiam fazer mal a família.</p>
<p>A rua inteira ficou apreensiva. Um dos vizinhos sumira e todos temeram pelo pior, só descobriram depois que ele viajara, pois o bairro “estava envolto em muita tensão”.</p>
<p>Um belo dia pela manhã, a vizinha da frente viu uns rapazes com maçaricos em volta da casa, colocando algo na fachada, saiu pelo portão e se aproximou o máximo que pode. Alguns outros vizinhos vendo a coragem dela, também foram para a rua imaginando que expulsariam o traficante de órgãos a qualquer custo, porém o que viram era algo inusitado. Uma placa grande com letras azuis identificando “Ortodontia Sorriso Feliz”. Apesar de ficarem desconfiados, viram o Doutor Guilherme de Andrade Silva entregando pessoalmente os folhetos de sua clínica. Com eles vieram mais dentistas que alugaram as salas fazendo daquela um centro odontológico de primeira. Ninguém comentou nada, nem sequer mencionavam a clínica em suas conversas. Mas por precaução ninguém daquela rua jamais marcou consulta.</p>
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		<title>Escritor Fantasma</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Aug 2011 13:02:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[Suspense]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasma]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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Com certeza o rapaz era muito jovem para o seu cargo Deveria ter no máximo dezenove anos, porém demonstrava com jovialidade que tinha aprendido tudo. As mangas cobriam parte de suas mãos quando estavam abaixadas, provavelmente herdara de seu irmão mais velho. O cabelo era um caso à parte a ser observado, cuidadosamente arrepiado com um gel de cheiro agradável, tinha como coloração principal o negro, porém suas pontas azuladas indicavam que até tempo atrás ostentava alguma cor não natural. – Por aqui senhor&#8230; – Freitas – disse logo para não constranger mais uma vez o rapaz que não conseguia decorar meu nome. Ele meteu as mãos nos bolsos procurando a chave quando parou em frente à porta. Algumas plantas decoravam o corredor iluminado, tão logo destrancou, o rapaz entrou rápido e abriu os braços no centro do cômodo como se dissesse que era muito amplo. – Não ligue para a bagunça, limpamos o lugar em até 24 horas da entrega das chaves – disse o rapaz abrindo a janela que dava para a rua. Logo percebi que o antigo inquilino pouco se importava para arrumação. Eram centenas de livros espalhados por todos os cantos, papéis das mais diversas idades compunham o cenário de caos, mas também me alertava para outra coisa. – Do que morreu o antigo morador? – pergunto de abrupto. – Ele&#8230; Ele sofreu um acidente&#8230; – respondeu o jovem surpreso pela pergunta – Como você sabia? – Acabei de imaginar e você me confirmou – respondi<a href="http://www.pedromoreno.com.br/?p=462"> <br /><br /> (Leia mais...)</a>]]></description>
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<p>Com certeza o rapaz era muito jovem para o seu cargo Deveria ter no máximo dezenove anos, porém demonstrava com jovialidade que tinha aprendido tudo. As mangas cobriam parte de suas mãos quando estavam abaixadas, provavelmente herdara de seu irmão mais velho. O cabelo era um caso à parte a ser observado, cuidadosamente arrepiado com um gel de cheiro agradável, tinha como coloração principal o negro, porém suas pontas azuladas indicavam que até tempo atrás ostentava alguma cor não natural.</p>
<p>– Por aqui senhor&#8230;</p>
<p>– Freitas – disse logo para não constranger mais uma vez o rapaz que não conseguia decorar meu nome.</p>
<p>Ele meteu as mãos nos bolsos procurando a chave quando parou em frente à porta. Algumas plantas decoravam o corredor iluminado, tão logo destrancou, o rapaz entrou rápido e abriu os braços no centro do cômodo como se dissesse que era muito amplo.</p>
<p>– Não ligue para a bagunça, limpamos o lugar em até 24 horas da entrega das chaves – disse o rapaz abrindo a janela que dava para a rua.</p>
<p>Logo percebi que o antigo inquilino pouco se importava para arrumação. Eram centenas de livros espalhados por todos os cantos, papéis das mais diversas idades compunham o cenário de caos, mas também me alertava para outra coisa.</p>
<p>– Do que morreu o antigo morador? – pergunto de abrupto.</p>
<p>– Ele&#8230; Ele sofreu um acidente&#8230; – respondeu o jovem surpreso pela pergunta – Como você sabia?</p>
<p>– Acabei de imaginar e você me confirmou – respondi notando que um rubor tomava a face do jovem, que deve ter sido instruído para não comentar sobre o assunto.</p>
<p>O escritório não era tão amplo, mas tinha o espaço necessário que eu precisava. Afinal queria apenas um cômodo para poder escrever em paz, artigo raro na minha casa, há três quarteirões daqui. Comecei a mexer na papelada procurando algo que ainda não sabia o que era enquanto o vendedor falava sobre as qualidades do apartamento. Quando disse que fecharia o contrato ele me cumprimentou efusivamente e passou a tratar dos termos e valores. Debaixo de uma pilha de papéis uma velha Olivetti de cor cinza se escondia na escrivania.</p>
<p>– Amanhã pela tarde o senhor já pode começar a usar o escritório que estará completamente limpo.</p>
<p>– Não precisa. Pode deixar que eu mesmo cuido disso – respondi ao garoto que apenas deu de ombros.</p>
<p>Agora olhando para os acontecimentos passados, não sei dizer por qual motivo eu disse isso. Algo urgia em meu peito pedindo para que o apartamento ficasse como está e eu mesmo o arrumasse. Talvez fosse uma necessidade de construir algo só meu a partir daquele caos, talvez algo que eu ainda não conhecia me chamasse.</p>
<p>O fato é que eu fiz.</p>
<p>Assinei os papéis na imobiliária e no caminho de volta para casa, resolvi passar no escritório. Pela primeira vez comecei a dar atenção para os livros estacionados em todos lugares. Eram biografias, ficções e toda sorte de literatura, além de gramáticas e dicionários. Peguei um calhamaço de papéis ao lado da Olivetti e fui para casa.</p>
<p>Chegando reafirmei o motivo de alugar um espaço para escrever. Não me levem a mal! Amo meus filhos e minha esposa, mas não é possível trabalhar com eles falando pelos cotovelos, e quando me falta paciência tendo a ser rude com os outros, o que é não é muito bonito de minha parte.</p>
<p>Jantamos, assistimos novelas e reportagens, li para minhas crianças antes de dormirem e fui para a cama onde minha mulher já esperava. Conheci Joana quando éramos muito jovens. E desde então nunca nos separamos, seus óculos de leitura pousados sobre o nariz e olhos percorrendo as páginas trazidas de meu novo escritório indicavam que alguém não tinha se aguentado de curiosidade.</p>
<p>– Então? – perguntei.</p>
<p>– Está ótimo. Quando começou a escrever?</p>
<p>– Não é meu, estes papéis estavam no escritório, provavelmente o antigo dono escrevia.</p>
<p>Peguei os papéis em seguida e os li. Era um romance e muito bem escrito por sinal. Haviam também contos, porém nenhum deles assinados. Apenas quando finalizei os textos, consegui dormir e com a noite como confidente sonhei ler novamente aqueles papéis. Não bem a aurora surgiu eu já estava no escritório a procura de mais e haviam muitos.</p>
<p>Eram novelas, contos, discursos e todo produto que a língua consegue imaginar. Cartas de despedida, literatura de cordel, romances inacabados e tudo mais, jogado e sem nome. Conforme arrumava os livros e guardava suas obras em uma caixa, o carteiro jogou uma missiva por debaixo da porta. Precipitei-me a pegá-la e lá encontrei o nome do antigo morador: Edson Ramos. Por uma questão moral nem abri a correspondência, depois a colocaria de volta a caixa de correio com o informe de que este havia falecido, conferi o remetente e era uma editora.</p>
<p>Quando terminei tudo, a noite já se fazia alta e frondosa como nas histórias antigas. Pedi pizza e avisei minha mulher que não jantaria em casa. Quando a comida chegou inundou o escritório com seu cheiro bom. Fiquei ali comendo olhando para aquele monte de caixas de papelão com os escritos de meu colega de profissão. Com o que será que sonhava? Do que gostava? Os textos eram tão diferentes entre si que não fui capaz de captar seu estilo ou tendência. Até os discursos não apresentavam relação entre si.</p>
<p>Então um barulho me despertou. Era um chiado baixo de água fervendo depois um sonoro estalo de peça mecânica vindo da pequena cozinha. Aproximei do cômodo e conferi que a cafeteira estava ligada e fazendo a sua função. Na jarra de vidro o líquido espesso e negro descia fumegante. Não lembrava de ter ligado tal aparelho ou tê-lo visto ligado quando cheguei. Também não era possível que estivesse desde ontem funcionando e tampouco era moderna o suficiente para ser programada. Desliguei-a da tomada por precaução desta ser um tipo de eletrodoméstico rebelde que liga quando bem entende. Girei meus calcanhares e me deparei com uma pessoa parada no batente da porta. Tamanho susto me fez por instinto pegar uma faca pousada sobre a pia e apontá-la na direção no intruso que, com uma xícara de café na mão, não demonstrou surpresa. Ateve-se apenas à sorver um pouco do café olhando para mim.</p>
<p>Vestia um terno curto de cor marrom com reforço nos ombros, por baixo uma camisa branca um pouco puída. Óculos de aros redondos e uma cabeleira já grisalha e esvoaçante terminavam de compor o visual.</p>
<p>– O que você está fazendo aqui? – perguntei mesmo sabendo que o questionamento não trazia nada de pertinente.</p>
<p>– Tomando um café – ele me respondeu olhando fundo nos meus olhos.</p>
<p>Senti um arrepio quando ele me deu esse olhar. Parecia que não se importava muito com minha presença e simplesmente saiu para o cômodo principal. Atravessei a cozinha para ver que ele sentara na cadeira e olhava fixo para a máquina de escrever, aproximou as mãos do teclado, mas pareceu que sequer tocou os dedos nele. Voltou olhar para mim como se perguntasse se eu ficaria olhando.</p>
<p>– Amigo, acho que há algum engano aqui – comecei a falar – eu aluguei esse escritório ontem e segundo me consta é meu. Não sei como o senhor entrou mas chamarei a polícia se você não sair.</p>
<p>Ele voltou a olhar para mim com aqueles olhos fundos e desta vez mostrou perplexidade.</p>
<p>– Eu trabalhava aqui – sussurrou como se fosse segredo – Desculpe. Estou confuso quanto ao meu papel agora.</p>
<p>Não sabia o que dizer. Também tinha dificuldade de entender. Passou pela minha cabeça a carta que chegara pela manhã, a puxei do bolso e joguei sobre a mesa na sua frente.</p>
<p>– Você é Edson Ramos?</p>
<p>– Sim.</p>
<p>– Acho que houve algum engano&#8230;</p>
<p>Desatei a explicar que a imobiliária tinha o dado como morto e com o imóvel vago, eu tinha o alugara para mim, mas amanhã teria um conversa para desfazer o inconveniente. Paralisei. O senhor tentava pegar a carta mas sua mão passava reto na maioria das vezes, precisou de muita concentração para por as mãos no envelope. Tinha perdido todas as palavras enquanto o via tentando digitar na sua Olivetti, porém os dedos passavam reto como se nada ali houvesse. Demorou muito para que conseguisse apertar as teclas. Ele era Edson Ramos e realmente estava morto. Senti um pequeno arrepio, o certo seria correr daquele lugar, mas a curiosidade me mantinha em pé, estacado no piso de madeira.</p>
<p>– Você era escritor? – perguntei.</p>
<p>– Sim.</p>
<p>– Já teve algum livro publicado?</p>
<p>– Vários. Até ganhei um Jabuti certa de vez.</p>
<p>Fiquei um tempo boquiaberto. O Prêmio Jabuti era importante no meio literário, mas seu nome não surtia nada em minha memória.</p>
<p>– Qual o livro que foi ganhador? – perguntei.</p>
<p>– Não posso falar.</p>
<p>– Não lembro de ter ouvido falar de você – falei com sinceridade diante da recusa dele dizer com qual livro ele ganhara o prêmio.</p>
<p>– É claro que não ouviu, sou discreto na minha profissão. Sou um <em>ghost-writer</em>.</p>
<p>A palavra bateu na minha cabeça com o significado certo, um escritor pago para produzir em nome de outra pessoa, porém logo em seguida fiquei pensando se ele não falava a respeito de sua condição como morto, pois afinal ele estava e parecia não perceber.</p>
<p>– Você sabe sobre sua&#8230; – fiquei alguns segundos escolhendo a palavra certa – condição?</p>
<p>– Sim.</p>
<p>– Então?</p>
<p>– Não comecei a escrever procurando glória ou fama. Isso é difícil no atual mercado editorial que apenas alguns com bastante contato ou simpatia conseguem ter um contrato. Dessa forma eu ganho mais dinheiro. Sou bastante requisitado como escritor e mantenho um bom diálogo de confidencialidade com meus clientes.</p>
<p>Não. Ele parece não perceber que morreu. Mas ao menos tirou minha dúvida quanto ao <em>ghost-writer</em>. Edson parou de tentar acertar a máquina e olhou novamente para mim.</p>
<p>– Estou com uma dificuldade aqui – confessou ele – você pode me ajudar escrevendo o que vou ditar?</p>
<p>Concordei com a cabeça. Segui até a Olivetti e a alimentei com papel. Ele sentou-se no chão em frente a porta e começou a ditar. Escrevi. Não sabia o que no começo e nem porque eu o fazia. Percebi que era a continuação do romance que eu lera na noite anterior. Edson não parava de ditar e eu teclava cada vez mais rápido. Quando o primeiro raio de sol surgiu, o fantasma simplesmente desapareceu. Voltei para casa com sono e acabado. Minha mulher reclamou de eu ter passado a noite fora e eu não podia dar uma explicação sincera do que acontecera. Apenas disse que tinha ficado no escritório, o que era verdade.</p>
<p>Na noite seguinte ele apareceu de novo, sentado no mesmo lugar e ditando seu romance. Fizemos isso por semanas à fio. Aos poucos ele pareceu entender minha necessidade de descanso e fazia pausas a cada hora passada. Nós não conversávamos, era apenas o som de sua voz narrando a história e o bater de teclas da velha Olivetti.</p>
<p>A história se desenvolveu, o enredo era fascinante e aos poucos indicava que teria um final, mas na última página do derradeiro encontro, Edson parou de ditar. Fiquei olhando ora para ele, ora para a Olivetti esperando que falasse algo, mas nada disse.</p>
<p>– Edson?</p>
<p>– Estava aqui pensando, como você acha que deveria terminar?</p>
<p>– Eu n&#8230; não sei – gaguejei.</p>
<p>– Dê sua opinião!</p>
<p>– Tudo deve acabar bem. Ele voltando para casa depois de ter conseguido tudo que sonhava. Um final feliz.</p>
<p>– Perfeito.</p>
<p>Edson voltou a ditar colocando a história de forma que tudo acabasse bem. Terminou com a palavra “fim” e passou a se levantar. Virou para a porta e passei a entender que ele iria embora e não mais voltaria.</p>
<p>– Edson? – gritei. Ele se virou, mas percebi que não deveria pedir para ele ficar – o que faço com o livro?</p>
<p>– Publique.</p>
<p>E com essa última palavra ele sumiu. Voltei todos os dias esperando que ele aparecesse mas isso não aconteceu. Ele deixara seu último trabalho para mim. Uma obra que agradaria a crítica e seria um fenômeno de vendas. Completa. Pronta para ser publicada. Um presente sem igual.</p>
<p>Uma semana depois o meu editor já ligava para mim com mil e um elogios sobre o livro. Disse que era sim de grande interesse publicá-lo e no outro mês ele já figurava nas estantes das livrarias vendendo a borbotões. Na capa simples branca um título e um nome. O Escritor Fantasma, de Edson Ramos. O dinheiro ganho foi dado para escolas com programas de alfabetizações para adultos. O livro concorrerá ao Prêmio Jabuti esse ano. A justiça afinal foi feita.</p>
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		<title>Sílvia morreu</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jul 2011 14:35:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>
		<category><![CDATA[Boemia]]></category>

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&#160; por Pedro Moreno &#160; Então, ela morreu. Fazia tempo que andava mais do lado do barqueiro do que dos vivos. Caso fosse culpada de um só fato, poderíamos falar, sem qualquer dúvida, que a bebida a matara. &#160; Sílvia. Sílvia era o nome da mulher. Trinta e poucos anos, mas com jeito de pessoa que passou pelos cinquenta há um bom tempo. Nas ruas por onde andava trôpega era chamada apenas de negrinha, não nesse tom pejorativo típico de crianças mal-educadas, pois soava até carinhoso, principalmente quando vindo de seu amor, Vivi. &#160; O nome dele poucos sabem, a única certeza é a sua moradia, uma casa sem telhados feita juntando entulhos de toda sorte. Conhecido pelos vizinhos pela sua educação, algo difícil de imaginar por culpa de preconceitos que todos nós temos. Seus cabelos grisalhos revelam poucos fios ainda loiros, o boato que corre à boca pequena indica uma descendência ucraniana ou de qualquer outro país considerado exótico para nós tropicais. &#160; No dia depois da morte de Sílvia, Vivi ainda remoía em seu cachimbo, além do fumo, a saudade de sua preta. Como ele amava aquela mulher. Nos últimos dias, a danada dera de adotar uma pomba que pousada em seu ombro andava de um lado para o outro como companhia. Era difícil saber quem mais sofrera maus tratos, a ave ou a mulher. O bicho com sua pata dilacerada por linha de pipa ainda se recuperava enquanto recebia carinho de Sílvia. Era raro ver as duas<a href="http://www.pedromoreno.com.br/?p=425"> <br /><br /> (Leia mais...)</a>]]></description>
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<p>&nbsp;</p>
<p>por <a href="https://profiles.google.com/pedroslaughter" rel="author">Pedro Moreno</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Então, ela morreu. Fazia tempo que andava mais do lado do barqueiro do que dos vivos. Caso fosse culpada de um só fato, poderíamos falar, sem qualquer dúvida, que a bebida a matara.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sílvia. Sílvia era o nome da mulher. Trinta e poucos anos, mas com jeito de pessoa que passou pelos cinquenta há um bom tempo. Nas ruas por onde andava trôpega era chamada apenas de negrinha, não nesse tom pejorativo típico de crianças mal-educadas, pois soava até carinhoso, principalmente quando vindo de seu amor, Vivi.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O nome dele poucos sabem, a única certeza é a sua moradia, uma casa sem telhados feita juntando entulhos de toda sorte. Conhecido pelos vizinhos pela sua educação, algo difícil de imaginar por culpa de preconceitos que todos nós temos. Seus cabelos grisalhos revelam poucos fios ainda loiros, o boato que corre à boca pequena indica uma descendência ucraniana ou de qualquer outro país considerado exótico para nós tropicais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No dia depois da morte de Sílvia, Vivi ainda remoía em seu cachimbo, além do fumo, a saudade de sua preta. Como ele amava aquela mulher. Nos últimos dias, a danada dera de adotar uma pomba que pousada em seu ombro andava de um lado para o outro como companhia. Era difícil saber quem mais sofrera maus tratos, a ave ou a mulher. O bicho com sua pata dilacerada por linha de pipa ainda se recuperava enquanto recebia carinho de Sílvia. Era raro ver as duas separadas, quando ganhavam uma bolacha ou biscoito de polvilho, elas repartiam a comida, Silvia sentada na guia e a pomba sobre seu colo. Triste e comovente ao mesmo tempo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O único lugar que a pomba não entrava era no bar. Parece que sabia o que o destino reservava para sua amiga. Ao menor cheiro de álcool, a ave já voava para longe. Ficava em cima de uma casa sem moradores em frente ao bar esperando Sílvia ficar sóbria. No dia seguinte, quando a ressaca tomava conta, a pomba pousava entre as sustentações do telhado e esperava Sílvia acordar de seu sono alcoolista. Quando abria o olho, a pomba já se aninhava em seu colo buscando aconchego.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O fumo de corda queima lento no cachimbo de madeira escura. Uma lágrima desce pelo rosto do velho Vivi. Era uma das poucas mulheres que ele amou. No fundo de uma garrafa de aguardente um restinho de depressão descansando. Vivi toma de uma só vez e segue até o velório.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Espera o ônibus um bom tempo sob o sol até que o transporte aparece. Ele senta em um dos bancos e os outros passageiros saem de perto, talvez pelo cheiro de pinga impregnado em suas roupas. Vivi olha para suas mãos sujas de trabalho. Alguns vizinhos o pagavam em troca de levar entulho ou aparar o mato que cerca os quintais. Além disso, há muito que sentem dó e entregam dinheiro por boa caridade para um necessitado. Suas unhas pretas tamborilam no banco em vão à procura de sossego.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O velório é visível quando Vivi desce do ônibus. Suas botas puídas tocam o asfalto e o calor lhe fere os pés, com calma ele percebe um furo grande em seu calçado, quando tiver tempo ele fará uma palmilha de papelão para não mais sentir dor. O prédio em que o velório ocorre é decadente, paredes descascadas e pintura que já viu muito choro e vela. Em uma sala ladrilhada, se vê um pequeno grupo, Vivi se aproxima, porém nem reconhece sua mulher.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Ei, Vivi, é por aqui!”, grita um rapaz do outro lado indicando o caminho certo. Sete pessoas. Amigos de bar não são bons companheiros para ir a um velório. Preferem a calma do bar e o conforto da pinga. O silêncio predomina. Ninguém sabe ao certo se dá condolências ou reflete sobre a cirrose que consumiu Sílvia, de qualquer modo, a mudez torna-se o novo paletó.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Todos estão sentados e Vivi acha logo seu lugar e passa a contemplar seus próprios pés. O terno surrado de cor marrom proveniente de uma doação da igreja precisara apenas de uns poucos remendos. Alguns nem se vestiram para a ocasião, desfilando de camisetas furadas e bonés de eleição. Triste fim de Sílvia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um dos amigos trouxe por precaução uma garrafa de boa aguardente, o lacre rompe e o líquido desce amargamente feito realidade pela garganta, o vizinho do lado vê e faz gestos com a língua como se também precisasse. Em seguida, a bebida passa de mão em mão.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A primeira acaba e um deles mendiga um trocado no velório vizinho e outra garrafa é comprada. Mais uma termina. A terceira é rateada com o troco do ônibus de todo mundo e quase o responsável não volta do bar tamanha a bebedeira em que se encontrava para comprá-la.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quando percebem todos estão bêbados chorando pela morte de Sílvia. “Ela era mulher de verdade”, anuncia Vivi. “Bebia feito macho”, declamava um dos colegas. “Sua perda deveria se tornar feriado nacional”, proclamava outro. As horas transcorriam e eles continuavam a beber a morta, alguns já dormiam ao lado do esquife emprestado da prefeitura, outros achavam falta de educação ser derrubado pela bebida em um velório e, corajosamente, permaneciam se embebedando.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No fim, sobrou Vivi de pé, acariciando a face de sua companheira morta. “Pretinha, por que você me deixou?”, reclamava sentindo o peso da injustiça a lhe corroer o estômago. Ela não poderia responder mais. Vivi imaginava se havia algum lugar reservado no céu para pessoas que nem eles, pobres cidadãos frutos da desigualdade e arrastados para a fuga rápida da bebida. Dragados para longe de suas famílias que agora apenas atravessavam a rua quando os viam. Deveria haver algum lugar para os fracos de espíritos como eles, e nele Sílvia encontraria sua paz. Poderia abraçar novamente sua mãe que morrera do mesmo mal, conheceria, talvez, seu pai que lhe abandonou quando ainda era bebê. Poderia, enfim, enxugar suas lágrimas no colo do Senhor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um resto de consciência ainda sobrara na garrafa. Vivi toma de um só gole e enxerga os servidores do velório vindo levar sua mulher, ele desperta seus amigos para um esforço final. Cada bêbado com sua alça de caixão levando vagarosamente a caixa pelas ruas tortas do cemitério. No final de uma ruela de barro pisado, o buraco daqueles que não tiveram identidade, família ou dinheiro. Sílvia juntará seus restos mortais a outros como ela, vidas destruídas por vícios ou falhas. Daqui alguns anos, a exumação revelará que tanto eles como os que puderam ter um jazigo próprio são feitos da mesma matéria. Não terá como diferenciá-los. O corpo é posto em uma vala comum.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Todos dão as mãos e rezam uma oração entrecortada e chorada. Doída no peito daqueles que sabem que a vida é frágil e sem sentido. Aos poucos, os corpos são cobertos por terra e nenhuma marcação é colocada, ninguém quer lembrar qual o seu último paradeiro. Logo a terra cobre o que as lágrimas teimavam fazer. Todos sentam perto da sepultura e acabam com mais uma garrafa ou duas, algo difícil de contar nesse estado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Vivi toma as doses restantes e acaba deitando. Ele morre engasgado com seu próprio vômito. De longe, a pomba de Sílvia pousada sobre o telhado do prédio alça voo sem destino certo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<pubDate>Fri, 10 Jun 2011 01:12:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Moreno</dc:creator>
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		<title>A Imensidão Branca</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Jun 2011 16:40:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
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por Pedro Moreno publicado originalmente em 09/06/11 &#160; O relato que passo neste diário já carcomido pelas intempéries marítimas pode lhe parecer fantasioso ou fruto de uma mente que já andou por tempo demais debaixo do sol não conseguindo mais ter alguma faculdade do que diz ou escreve. Advirto porém que esta é a realidade crua de eventos dos quais fui tragado sem nem ao menos poder me antecipar ou mesmo contorná-los. &#160; Meu nome é William, apesar de parecer britânico, vim mesmo destas terras tupiniquins onde sobra calor e frutas frescas o ano inteiro. O Brasil é grande como não há igual e diverso como poucos países conseguem ser. Os encantos da sedução residem nos olhos das mulatas de meu estado, ou nos olhos claros europeus mais ao sul. A brasilidade é algo bonito de se ver, apreciar e viver. Não sei qual bicho se instalou em minha mente que roubou-me o dom do discernimento e puxou-me para fora, como se conhecer o mundo seria algo fabuloso. &#160; Não minto que realmente o estrangeiro sempre fascina o brasileiro. Tratamos melhor nossos imigrante do que nossos crioulos. Puristas dizem que apenas os indígenas então poderiam ser considerados o legítimo brasileiro sob essa ótica, porém concordo que não precisamos tratar melhor nossa gente, e sim por igual, afinal esses já tem o privilégio único de ter nascido brasileiros. &#160; Não me ufano deste país dizendo que não há mazelas, pois nele há sim! Porém qual lugar no mundo não tem? Corrupção,<a href="http://www.pedromoreno.com.br/?p=404"> <br /><br /> (Leia mais...)</a>]]></description>
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<p>por <a href="https://profiles.google.com/pedroslaughter" rel="author">Pedro Moreno</a></p>
<p>publicado originalmente em 09/06/11</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.pedromoreno.com.br/wp-content/uploads/2011/06/northpole1.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-406" title="northpole" src="http://www.pedromoreno.com.br/wp-content/uploads/2011/06/northpole1-300x205.jpg" alt="" width="300" height="205" /></a></p>
<p>O relato que passo neste diário já carcomido pelas intempéries marítimas pode lhe parecer fantasioso ou fruto de uma mente que já andou por tempo demais debaixo do sol não conseguindo mais ter alguma faculdade do que diz ou escreve. Advirto porém que esta é a realidade crua de eventos dos quais fui tragado sem nem ao menos poder me antecipar ou mesmo contorná-los.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Meu nome é William, apesar de parecer britânico, vim mesmo destas terras tupiniquins onde sobra calor e frutas frescas o ano inteiro. O Brasil é grande como não há igual e diverso como poucos países conseguem ser. Os encantos da sedução residem nos olhos das mulatas de meu estado, ou nos olhos claros europeus mais ao sul. A brasilidade é algo bonito de se ver, apreciar e viver. Não sei qual bicho se instalou em minha mente que roubou-me o dom do discernimento e puxou-me para fora, como se conhecer o mundo seria algo fabuloso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não minto que realmente o estrangeiro sempre fascina o brasileiro. Tratamos melhor nossos imigrante do que nossos crioulos. Puristas dizem que apenas os indígenas então poderiam ser considerados o legítimo brasileiro sob essa ótica, porém concordo que não precisamos tratar melhor nossa gente, e sim por igual, afinal esses já tem o privilégio único de ter nascido brasileiros.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não me ufano deste país dizendo que não há mazelas, pois nele há sim! Porém qual lugar no mundo não tem? Corrupção, intolerância e fome só para começar a lista. Muitos vícios que também permeiam as sociedades pelo mundo afora.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como bem relatava sobre o fato de viajar, acabei por conhecer diversos povos e culturas que me agradaram muito ou pouco. Mas nessas linhas escritas que porventura você encontrou, conto sobre minha última viagem, no extremo norte, além da Sibéria, embarquei em um navio da época da URSS que me levaria para conhecer algo não antes possível em minha mente. Segundo o capitão, Vladimir Kuzaks, se contasse de antemão o que me esperava, eu o tomaria por mentiroso e sequer iria.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Paguei caro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Confesso que me aposentei por um deslize do sistema previdenciário brasileiro, passei a ganhar a mesma quantia de quando trabalhava e podia ficar em casa. Como o dinheiro nunca me fez falta e sequer me casei, não sobrou outra alternativa a não ser viajar. Vivi de forma que muitos homens implorariam e tenham certeza que me beneficio muito bem dela.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Porém as noites de mulheres quentes aos poucos deixaram de ser novidade, passei a correr o mundo atrás de algo que surtisse alguma emoção em meus nervos. Participei de caçadas à animais selvagens, rituais de tribos indígenas, exploração a lugares ditos amaldiçoados e toda sorte de maluquices que poderia o dinheiro pagar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hoje estou no que se pode chamar de final do mundo. Parece que a imensidão branca quer dominar minha alma conforme o navio quebra o gelo abrindo espaço para nossa passagem. O capitão olha o GPS para se orientar, passados alguns nós marítimos o aparelho falha e recorremos a bússola. Em poucas horas, essa também começa a rodar sem sentido indicando que já não tem serventia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>As grandes placas de gelo nos rodeiam dificultando a passagem. Esse trecho terá que ser a pé. O casaco forrado impede que o frio penetre em minha pele, mas as áreas descobertas sofrem. Uma fina camada de neve pousa sobre minhas botas que se pregam no chão dando certa sustentabilidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Caminhamos por alguns quilômetros. O frio parece querer nos puxar para trás, porém continuamos firmes na trajetória. Um conjunto de alguma construção começa a aparecer, no começo indefinidas, depois vejo que são alguns pedaços de madeiras, ou ossos, com peles de animais estendidas formando tendas. O capitão aponta e estaca no lugar, acho que devo prosseguir sozinho. Caminho vacilante. Um vento maligno me derruba e caio de cara sobre o gelo, olho para trás e vejo que os marujos sequer perceberam. Deveria não ter dado o dinheiro integralmente para eles. Ergo de meu lugar e continuo com passadas pesadas em direção às tendas. Já posso enxergar pessoas. Parecem atarracados e baixos, diria que perfeitos para a situação na qual se encontram. Vestem peles de animais não tão grossas, parecendo improvável o fato de conseguirem sobreviver no gelo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Conforme avanço, uma sombra no horizonte parece se mover desajeitadamente, no principio acreditei ser uma pequena embarcação marítima que tentava a todo custo passar, porém não tinha o barulho típico desses navios. Obviamente era terrestre, mas algo muito maior que um carro, sua altura era de uma caminhão, porém também não era possível um destes nos ermos que me encontro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um abalo sísmico acompanhava sua evolução. Senti minhas pernas se estremecerem com a aproximação e nem sabia exato que era. Algum medo primitivo tomava conta de meu corpo. Tão logo percebi que era um tipo de quadrúpede que andava em minha direção, minhas pernas por fim amoleceram e caí. A criatura que se agigantava em minha frente não era possível existir, um verdadeiro pedaço do paleolítico se erguia em minha frente. Um mamute. Com seu corpanzil de pelos espessos e acastanhados com dois dentes alvos projetados de sua boca formando uma curvatura monstruosa. Os olhos vermelhos não me fitavam, provavelmente a fera sequer me vira, continuava apenas com seu andar pesado seguindo um rumo que só fazia sentido para si mesmo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Uma movimentação vindo das tendas me chamou a atenção. Um grupo de homens armados com lanças improvisadas passou a correr em direção ao animal que nada notou. Conforme ganhavam terreno estremeci ao ver seus semblantes. Não eram homens, e sim ancestrais nossos não evoluídos cujas figuras eu já conhecia dos livros de história. De traços simiescos e corpo robusto, com testas volumosas e queixo protuberante. Nos braços despidos uma grossa camada de pelos e do alto de suas cabeças uma cabeleira enorme ora castanha ora loira. O Homem-de-neandertal. Com suas lanças improvisadas eles atacam o mamute fazendo-o agir de maneira descontrolada. Conforme eu arfava de medo e excitação uma nuvem grossa de vapor se desprendia de minha boca, o sangue do animal tingia o gelo em tons de magenta. Era disso que o capitão falava. Algo impossível de eu ter visto antes, inimaginável sua existência. Na minha frente um grupo de neandertais e um mamute se digladiam pela sobrevivência.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Uma estocada na cabeça do animal e este cai ruidosamente no chão, queria eu ter agilidade daqueles homens, pois se tivesse conseguiria fugir do pesado marfim que me acertou as costelas. Fico preso, no gelo, sem poder sentir minhas pernas. Os neandertais começam a puxar o animal em direção às suas tendas, um deles me observa com curiosidade, porém com medo eu o afasto com um grito, o mais alto dos neandertais precipita com uma lança em mãos pronto para me furar, mas outro, surgido do nada,  segura com a expressão que não seria isso correto. Não consigo me mover e a sombra dos homens puxando o mamute já é distante. Do outro lado não consigo ver o capitão, os marujos ou o navio. Estou só, com uma caneta e este diário, tentando me lembrar como era o gosto do sol a tocar minha pele, o cheiro perfumado da gente da minha terra, o calor que é estar no Brasil.</p>
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		<title>Funerária Anúbis LTDA</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Jun 2011 01:13:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Moreno</dc:creator>
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1 livro, 30 dias Com a idéia de fazer um livro em trinta dias e documentar o processo de criação nasceu a Funerária Anúbis LTDA. Através de postagens em blog e vídeos mostrei todos os percalços que enfrentei para escrever esse livro. Para saber mais acesse o blog do projeto Para comprar utilize o serviço de uma dessas livrarias: Livraria Saraiva Livraria Cultura Leia um trecho gratuitamente ou compre o livro pelo site da editora Simplíssimo. E-book disponível em formato e-pub ou Kindle, sendo possível ler também pelo computador ou notebook. Funerária Anúbis LTDA &#160; Acesse a Funerária Anúbis LTDA também no Skoob]]></description>
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<p style="text-align: center;"><strong>1 livro, 30 dias</strong></p>
<p style="text-align: left;">Com a idéia de fazer um livro em trinta dias e documentar o processo de criação nasceu a Funerária Anúbis LTDA. Através de postagens em blog e vídeos mostrei todos os percalços que enfrentei para escrever esse livro.</p>
<p style="text-align: left;">Para saber mais acesse o <a href="http://funerariaanubis.blogspot.com" target="_blank">blog </a>do projeto</p>
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<p style="text-align: left;">Para comprar utilize o serviço de uma dessas livrarias:</p>
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<p style="text-align: left;"><a href="http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/3562962/funeraria-anubis-ltda/?ID=B1403B487DB0B080A1D3A0420" target="_blank">Livraria Saraiva</a></p>
<p style="text-align: left;"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?isbn=9788563654595" target="_blank">Livraria Cultura</a></p>
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<p style="text-align: left;">Leia um trecho gratuitamente ou compre o livro pelo site da editora <a href="http://www.simplissimo.com.br/autores/blog/funeraria-anubis-ltda-1/">Simplíssimo</a>. E-book disponível em formato e-pub ou Kindle, sendo possível ler também pelo computador ou notebook.</p>
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<dt class="wp-caption-dt"><a href="http://www.pedromoreno.com.br/wp-content/uploads/2011/06/capa22.jpg"><img class="size-medium wp-image-401" title="Funeraria Anubis LTDA" src="http://www.pedromoreno.com.br/wp-content/uploads/2011/06/capa22-225x300.jpg" alt="Funeraria Anubis LTDA" width="225" height="300" /></a></dt>
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<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.skoob.com.br/livro/179828">Acesse a Funerária Anúbis LTDA também no Skoob</a></p>
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